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João Rosa de Castro - Bis

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DOIS MUNDOS E TRÊS FORÇAS
A força motriz do feijão Deixou os robôs assustados. Uma caminhada na praça: Uma porção de zinco.
Por que deixar os botões de lado Se reiniciam já os soldados? Faz tempo que eles marcham.
Distinguir o céu e a terra. Distinguir a paz e a guerra. Distinguir o estar e a espera. Distinguir o vácuo e a atmosfera.
Respirar. Sim pra tudo? Não! Não pra tudo?
Sim!

Tubiro fora o único sobrevivente da diluição. Ainda estava em vias de transcrição para o computador. Eu não tinha a menor ideia de onde protegê-lo. E foi num cartório da Avenida Paulista que me disseram que eu poderia registrar. Em vez de me informarem sobre a biblioteca nacional, aproveitaram os meus míseros reais para carimbar cada página. Eu não tinha lido o filósofo Frederico ainda. Era tão cristão. Tubiro fala, pois, dos apóstolos diante do mar. Fala em deus com veneração. São poemas coloridos, ingênuos. Não tinham a menor vivência. Qualquer criança de meses poderia ser seu autor. Fala de aborto, de santidade, de água ben…

João Rosa de Castro - Bis

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A REINVENÇÃO DO VENTO
As noites sem sono Dão sono de dia. Você abre o livro Pros moços passarem. O vento na sua mão é chave, O verbo na sua língua – suave. Pega no fundo a cor parda. Peca na lateral da tela.
As cidades com o tempo se apequenam. E as multidões minimizam: Maquetes que vês ao longe.
A sua palavra se avoluma.
Você se tornou gigante.

Na companhia segura do poeta Léo de Carvalho, tiveram início os meus movimentos literários até aqui. Movimentos que, mesmo em direções diferentes, tiveram algo em comum: a escrita de trinta e um livros, sendo eles dezesseis em verso e quinze em prosa. O primeiro movimento foi ouvir o poeta lendo sua poesia profunda, vibrante e vivaz, repleta de signos do amor e da paixão, resultados da opressão ferrenha da ditadura militar, que forçava as pessoas a uma felicidade que apenas era desmistificada (ou até vivida) através da poesia. Eu precisava daquilo: do contrário me evadia aos tentáculos da “normalidade”, onde era importante permanecer. Uma adolescência um ta…

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SENHORA
Quem quer ouro ganha glória, Quem quer glória ganha ouro. Mas não dá pra ser assim. Tal qual se quer.
Você aceita a resposta que não foi pensada. Você parece me querer como eu estiver.
Na pobreza do balaio há riqueza impenetrável. Você é uma heroína inalcançável, indecifrável – uma esfinge.



Todo o meu manifesto escrito teve início em 1992. Portanto, em 2018, serão 26 anos de letras. Até aquele ano, eu tinha trabalhado bastante sem saber com que finalidade. Fora mensageiro em escritórios do centro de São Paulo. Andara com documentos envelopados sem saber o que diziam. Entregara duplicatas, cujos pagamentos ou serviços não sabia serem lícitos. Talvez, fosse cúmplice de gangues sem que nem o percebesse. O crime estava além do meu entendimento. Não que hoje já o entenda. Os amigos de minha idade eram tão ingênuos quanto eu. Íamos três ou quatro rapazes em busca de emprego pelo centro, vindo andando da República até o Brás, em busca de placas “admite-se office-boy” ou, o que era mais interes…

João Rosa de Castro - Bis

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PENHA DE FRANÇA
Por que enxugar as lágrimas Que ainda não foram choradas? Por que entender a angústia Que ainda não foi vivida?
Guarde o seu lenço para o futuro conturbado, Que embora não exista, não sai da minha cabeça. O açoite tecnicolor da dança do nosso mundo. A monótona reinvenção de tudo o que vimos ontem. A visão da caverna escura e tudo mais que nos assusta Faz sentir os dias festivos de uma maneira vazia.
Vamos nos erguer a partir de nós mesmos Percebendo o sorriso até nos gestos mais simples. Porque a alegria é o que buscamos, E a tristeza é de onde fugimos.


Caro leitor,
Se me leu apenas uma vez em poesia, e se toda semana os leitores do Lume d’Arena são diferentes, tenho realmente muitos leitores, ainda que evasivos, desistentes de mim. Mas se me lê toda semana, terei poucos leitores em número, ainda que cúmplices e qualitativamente amigos. Seja lá como for, ainda que me houvesse apenas um único leitor no blogue, me sentiria inspirado por afetos de lealdade e por vínculos humanísticos a …

João Rosa de Castro - Bis

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NATUREZA MORTA
A toalha estampada nas bordas. A mão não entra na fotografia. Imagine o universo que silencia. Um ambiente escuro e eterno Que o flash clareia com raios Formando assim uma atmosfera. Veja os objetos arranjados. Não tente tomá-los para si. O vaso azul com a flor esquecida Deixado por Dolores irada Comunica todo o passado, A beleza que viu na casa, A flor sempre sua amada Não sente mais o que vivia. Só vê a estampa da borda: Peixinhos enfileirados, Mais vivos que ela própria.

João Rosa de Castro - Bis

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CANTÁRIDA
Pétala tida por chip Orvalho em placas. Janelas fechadas por dentro E abertas por fora. O laboratório em silêncio. O ritmo robótico da psicofagia E o verbo aparece. Brotar, crescer, conhecer O modo como se nutre. A pétala faz o seu caminho Até ser chip.

João Rosa de Castro - Bis

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O RG
Nascida na cidade sem tamanho, Na data que no ano é feriado, A foto foi tirada no escuro Não sabem por ai quem será ela. A data de emissão nunca é recente O polegar direito ficou fraco.
O plástico ruído de tão gasto Andou pela bolsinha delicada. A Vera é a Vera e não Luana.
Entrega ao porteiro toda vez. Não sabe ele que ela não precisa. De norte a sul já é tão conhecida. Mas fica: o consulado é exigente.
O que pensava ela nesse dia? Que se não fosse assim não era gente? A fila, o carimbo, a atendente Pedindo sua altura e a cor dos olhos.
Só rindo mesmo imaginando o medo Que sente Vera Lúcia confundida, É una, fina, alegre, inteligente Mas passa por um número geral.
Geral que a outra parte não se perde, Nenhuma Vera é assim tão verdadeira. O erregê de Vera na padoca Pra todo mundo ver que ela existe.