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João Rosa de Castro - Bis

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MADRIGAL
Que tradição seguiremos No conglomerado de tribos, Se a humana força se perde A cada minuto da hora? O que há nos lares escuros? A solidão, o delírio, A dança, a festa ao domingo E a timidez nos olhares. Que multidão formaremos Nas avenidas abertas Falando igual idioma Nessa linguagem secreta?
Vamos pairar feito anjos Vendo felizes os deuses De uma distância impossível
Como se não existíssemos.

João Rosa de Castro - Bis

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BIS
A banda feminina passou pela vila. Nenhuma rasura era permitida. Nenhuma denúncia, nenhuma violência. As risadas tão quentes que as moças davam. A ponta de inveja das que não eram mais fêmeas. As unhas pintadas de maneira festiva. A sua intensidade, a sua natural intelectualidade. Mulheres-maravilhas com as mãos acenando. Mulheres-gatas – louraças, negraças, morenaças... As malabaristas circences donas da Terra passavam. Perfumaram as ruas com fragrâncias exóticas. Não mostraram a bunda mais do que A clareza das faces verdadeiras. Não mostraram a matéria mais do que A tepidez de suas almas ternas. A vila ficou menos periférica Com a passagem da banda feminina. E elas nem sequer gritaram Nem tampouco se venderam Passaram sem caridade, Sem bondade, Sem lascívia, Só passaram.

João Rosa de Castro - Bis

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MÁQUINA-EU
Esse ódio que por mim sentiste Ficou tão intenso, Ficou tão vibrante, Ficou tão contínuo, Que se tornou cintilante antes de virar amor.

João Rosa de Castro - Bis

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BACO
O que faço se a minha pior fraqueza Reside num corpo que não é o meu? E para o fruto que me nutra, atravesso desertos. E para a mais básica água, tenho de dançar a chuva. E o meu pensamento são tíquetes. A vida nos segundos do relógio Fica tímida ao se ver desmascarada. Que mundo é esse que criei! Que labirinto! Então eu quase nulo, Então eu quase bicho, Então eu quase sóbrio, Subo umas escadas de pedra Vejo de longe a perfeição E volto para a temida solidão. A vida só pode ser bela, A vida só pode ser pura, A vida só pode ser longa, Quando se tem coragem para disfarçar.

João Rosa de Castro - Bis

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A MINHA POESIA
A minha poesia teve toda chance de ser pura, Mas revestiu-se de uma vegetação muito pesada. Pôde ser uma donzela. Encantando os tiranos e a meiga senhora. Mas quis dançar nos palcos, cabarés. Ela teve toda chance de ser só uma utopia, Mas cruzou os mares e foi ser vedete em nórdicas paragens. Ela, tão inquieta, elétrica falou O que eu como pessoa jamais pude imaginar. Ela foi uma corda e um nó prontos Para me amarrar ao mundo.
A minha poesia teve toda chance de ser mãe, Mas só quis ser filha, assim ovelha negra, Árvore maldita, sonsa, mal amada. A minha poesia é falsa. A minha poesia é clubber A minha poesia é devassa: Nunca se apaixonou por ninguém.

João Rosa de Castro - Bis

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NIETZSCHEAR
Um mundo novo para um pensamento livre. Vias abertas para os que querem só passar. Os que ficam são saudosos. Os que param querem O que ainda não foi inventado.
Os que viajam nas imagens distantes temem o que se passa ao redor. Os que se aquietam ao volante do carro Seguem o caminho conhecido. Os que descem a montanha russa Se arrependem a cada queda. Os que leem os jornais Sintetizam demais a verdade. Os que querem algo em troca Se surpreendem com o descaso. Os que têm boa memória Querem muito esquecer. Os que dizem a verdade São exemplares e temidos. Os que atingem audiência Perdem o bom de dizer. Os que tentam mudar de classe Mudam ao menos a roupa. Os que enfrentam a si próprios Armam a própria prisão. Os que fogem do destino Encontram um destino geral Distribuído por senha. Os que ouvem em demasia Se embriagam de palavras. Os que amam demais São surreais até nos passos. Os que vivem na infância Já não sabem o que viveram. Um mundo livre para um pensamento novo.

João Rosa de Castro - Bis

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FIBRA ÓTICA
Vontade para sempre inteira. Vernáculo atrofiado. Vontade para meio-dia. Silêncio como palavras E passos no lugar de gritos. Que conduta funesta Não dizer segredos a si mesmo.
A intertextualidade do real e do risível Desce. Cai. O corpo seco engole abruptamente a certeza. A última gota que havia de desejo Perdeu-se na fibra ótica internética.

O passeio encantado tem gente vendendo. Compre um alfinete, compre um dragão. Compre uma fivela e ponha o cinto. Compre um sonho, compre a compra. Compre a compra da compra para ajudar. Compre um livro de poesia para que te linchem Por minha causa. Assuma sua vontade de ser. Porque a tinta pensa mais a toda parte.