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João Rosa de Castro - Bis

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NIETZSCHEAR
Um mundo novo para um pensamento livre. Vias abertas para os que querem só passar. Os que ficam são saudosos. Os que param querem O que ainda não foi inventado.
Os que viajam nas imagens distantes temem o que se passa ao redor. Os que se aquietam ao volante do carro Seguem o caminho conhecido. Os que descem a montanha russa Se arrependem a cada queda. Os que leem os jornais Sintetizam demais a verdade. Os que querem algo em troca Se surpreendem com o descaso. Os que têm boa memória Querem muito esquecer. Os que dizem a verdade São exemplares e temidos. Os que atingem audiência Perdem o bom de dizer. Os que tentam mudar de classe Mudam ao menos a roupa. Os que enfrentam a si próprios Armam a própria prisão. Os que fogem do destino Encontram um destino geral Distribuído por senha. Os que ouvem em demasia Se embriagam de palavras. Os que amam demais São surreais até nos passos. Os que vivem na infância Já não sabem o que viveram. Um mundo livre para um pensamento novo.

João Rosa de Castro - Bis

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FIBRA ÓTICA
Vontade para sempre inteira. Vernáculo atrofiado. Vontade para meio-dia. Silêncio como palavras E passos no lugar de gritos. Que conduta funesta Não dizer segredos a si mesmo.
A intertextualidade do real e do risível Desce. Cai. O corpo seco engole abruptamente a certeza. A última gota que havia de desejo Perdeu-se na fibra ótica internética.

O passeio encantado tem gente vendendo. Compre um alfinete, compre um dragão. Compre uma fivela e ponha o cinto. Compre um sonho, compre a compra. Compre a compra da compra para ajudar. Compre um livro de poesia para que te linchem Por minha causa. Assuma sua vontade de ser. Porque a tinta pensa mais a toda parte.

João Rosa de Castro - Bis

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AMOR
É isto, amor, que é o amor. A renúncia de uma vida encantada. Surreal como a beleza da orquídea. Possível como o silêncio vespertino.
É isto, amor, não há outro amor. Síntese de quanto foi vivido. Constante despedida dum oásis. Viagem que se faz em si mesmo. Fusão de dois impulsos: confusão. É não perder de vista cada passo. Impuro como o beijo que se evita. Fantasmagórico como um sonho que se esquece. Certo como cada meio dia. Surpreendente para que ninguém o negue. Misterioso para que não o decifrem.
É isto, amor, e muito mais. Pulso que o pensamento não alcança. Música que se ouve solitário.

João Rosa de Castro - Bis

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O TEMPO
A parede diz as horas. A parede mostra a língua. A parede paquera. A parede sorri alto. A parede tem ouvidos. A parede dá paisagens. A parede dá conselhos. A parede esconde o outro lado. A parede não deixa entrar. A parede separa um chão do outro. A parede quer ser pra cada um Uma mãe eterna, um pai risonho.

João Rosa de Castro - Bis

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INFÂNCIA
Haverá um tipo novo de lágrima Para essa nova gama de sentimentos. As páginas da vida separadas por capítulos Surpreendem os autores. Um homem esquecido, Um homem rejeitado claramente, Um homem posto à margem como nunca. Esculpe para saber-se fazendo, Dança para notar-se existindo E verte um sorriso forte Para dizer que está ali. Haverá um tipo novo de encanto Para uma nova forma de infância.

João Rosa de Castro - Bis

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O MODEM
Digitou o que disse o coração. O modem mandou para quem não tinha coração. O choque da ponta dos dedos Apagou as letras do teclado. Esta memória potente Guardou mexericos desprezíveis Guardou fotos e diálogos E agora dá imagens a quem pedir. Esta memória é indecente Os gigabytes namoram E ela não conta a ninguém. Esta memória é ufana. Derrama a lua e declama Os bate-papos perdidos. Sentiu o toque na tecla E as luzes se acenderam. A ilusão dessa tela Reacende sorrisos. O solitário e os ícones, Os ícones e as tabelas, As tabelas e os espaços em branco Formaram um matrimônio. O nome dela é Abigail.

João Rosa de Castro - Bis

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CADA JOÃO
Cada João que desce a cerra E se vê na natureza Persiste com passos inéditos Na vida sem desilusão.
Cada Tereza que fecunda outro corpo E se esconde da gente Insiste em cantar A canção já cansada.
Cada pronome que explode na boca E se agiganta aos ouvidos É o desenho do que se deseja Tomar para si e abraçar.
Cada história de vida que se desenrola E se impõe diante do povo Quer apenas ser lida Como carta secreta.
Cada grito que ensurdece o teatro Carrega em si todo um vídeo Que assim se rebela Para alertar.
Cada sonho que se tem acordado Separa um dia do outro Formando um tempo próprio Na vida de cada José.