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João Rosa de Castro - Bis

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GOODBYEDeixo o solar com o peito aberto  E uma tristeza nova. Mais uma saudade pra minha gama de saudades. Saio pela porta como quem deixa a mulher prenhe. Como quem vai comprar cigarros para sempre. Sigo por esse caminho que já ando sem pensar. Vou avisando os luzeiros que agora Nem todo dia me verão passar. As avenidas, os faróis, o metrô, Anhangabaú que desço rasgando as Bandeiras, Vendo a lua, que é a mesma em Salvador. Enfiando o bilhete, automático como um robô. E o solar vai ficando distante a cada noite. E agora já lembra uma escola antiga Que guarda eterna meu DNA nas carteiras. Adeus, solar dos meus encantos, Nunca mais serei teu como agora. Nunca mais serás meu como foste. Que a vida fica acesa e a TV deixo ligada no saguão.

CIO DA PEDRA
Com o Cio da Pedra, eu me despedia da vida em família, me despedia dos trabalhadores braçais, dos comerciantes, etc., para me dedicar às letras. Mal sabia que estava sendo mais um “Oi” do que um “Tchau” a todos eles. A pedra faz referência às pedras de Pedro, …

João Rosa de Castro - Bis

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A VIDA É NOSSA
A tribo não dançou hoje como ontem. Quer ver televisão com as meninas. Do teu nariz escorre um ar pesado. Você engana quantos não enxergam. Eu com a teia aranha faço laços. O Pedro com ouvidos de argila. Fofoca come solto na bastilha. Um quer sorver o outro pelo nome. O mundo aprendeu tudo com Dolores. O que fazer com tudo assim tão pronto? O que dizer se tudo já vai dito? O nojo foi virando uma virtude. A praga, um negócio, uma fortuna. Que tudo que se diz guarda um segredo. Tesouro acumulado torna um rico. O rico pisa sobre o sem segredo. E o mundo vai seguindo sem sentido.




Fio Terra poderia ter outro título que este ambíguo. Mas, como a arte em si é polissêmica, não há porque não chamá-lo assim. Fala em equilíbrio, em uma esperança que nem aumenta nem diminui o suplício. Mas uma esperança que move para o ato. Para a ação, para o sentir-se ativo e agente da própria vida. Pede, do começo ao fim, e a quem quer que ouça, a purificação, a cristalização do mundo, a clareza da própria obscurid…

João Rosa de Castro - Bis

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ROSA DE PAPEL
Tal como o silêncio é tomado: Às vezes por arma letal, Às vezes por sacra virtude, Você faz da minha omissão o que bem quer. Aproveita a figura que eu inspiro e rege o seu mundo. Entretêm-se. Delicia-se. A mulher-arma abre os braços e se rende e sucumbe Porque a guerra é uma distração antiga.
É preciso pilares para sustentar o seu teto. O que pesa tanto acima de você? Que passos são estes por sobre a sua cabeça? O seu sussurro parece um grito disfarçado. Os seus olhos escrevem e narram uma vertigem. Amor. Que fazer com as cores dessa paisagem? Façamos um mundo juntos. Façamos a vida juntos. O real em sua nudez estonteante. Nossa visão atenta Que em tudo vê a volúpia. Aumenta – dá zoom no mundo. Volume – ensurdece a alma. A natureza brinca.


Amargo & Inútil é uma ironia usada contra a afirmação de Horácio, que eu lia no metrô, em uma daquelas detestáveis apostilas universitárias, de que a poesia era “doce e útil”. Considerei bem o contexto em que a expressão era lida: no metrô lotado, lendo um…

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DOPAMINA
Dopamina não é mais que dopamina. Dopamina não é figura de cartão postal. Dopamina teimosa precisa ficar sem passar livremente. Dopamina em excesso é arriscado como o malte. Dopamina parece frase abreviada e coloquial. Dopamina é um trem que tem vagões e mais vagões. Dopamina é capaz de levar Hércules para o choque. Dopamina gera gírias atômicas. Dopamina a ciência não entende sem demência. Dopamina vai no fluxo do cérebro desprezado. Dopamina manda no mundo que nem dama apaixonada. Dopamina tem vaidade, tem vontade, tem tensão. Dopamina faz da vida uma ciranda, um refrão.


Persona Non Grata teria se chamado Ouça-me. Seria, pois, a continuação do desespero. Ocorreu, porém, um imprevisto, em que o gerente do hotel onde eu trabalhava declarou “persona non grata” um primo meu que se hospedava lá, por motivo de vandalismo de um seu companheiro de quarto, e o fato me deixou muito irritado. Mas o livro em si é considerado o primeiro desta mesma fase que ainda não terminou e inclui toda a minha obr…

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DOIS MUNDOS E TRÊS FORÇAS
A força motriz do feijão Deixou os robôs assustados. Uma caminhada na praça: Uma porção de zinco.
Por que deixar os botões de lado Se reiniciam já os soldados? Faz tempo que eles marcham.
Distinguir o céu e a terra. Distinguir a paz e a guerra. Distinguir o estar e a espera. Distinguir o vácuo e a atmosfera.
Respirar. Sim pra tudo? Não! Não pra tudo?
Sim!

Tubiro fora o único sobrevivente da diluição. Ainda estava em vias de transcrição para o computador. Eu não tinha a menor ideia de onde protegê-lo. E foi num cartório da Avenida Paulista que me disseram que eu poderia registrar. Em vez de me informarem sobre a biblioteca nacional, aproveitaram os meus míseros reais para carimbar cada página. Eu não tinha lido o filósofo Frederico ainda. Era tão cristão. Tubiro fala, pois, dos apóstolos diante do mar. Fala em deus com veneração. São poemas coloridos, ingênuos. Não tinham a menor vivência. Qualquer criança de meses poderia ser seu autor. Fala de aborto, de santidade, de água ben…

João Rosa de Castro - Bis

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A REINVENÇÃO DO VENTO
As noites sem sono Dão sono de dia. Você abre o livro Pros moços passarem. O vento na sua mão é chave, O verbo na sua língua – suave. Pega no fundo a cor parda. Peca na lateral da tela.
As cidades com o tempo se apequenam. E as multidões minimizam: Maquetes que vês ao longe.
A sua palavra se avoluma.
Você se tornou gigante.

Na companhia segura do poeta Léo de Carvalho, tiveram início os meus movimentos literários até aqui. Movimentos que, mesmo em direções diferentes, tiveram algo em comum: a escrita de trinta e um livros, sendo eles dezesseis em verso e quinze em prosa. O primeiro movimento foi ouvir o poeta lendo sua poesia profunda, vibrante e vivaz, repleta de signos do amor e da paixão, resultados da opressão ferrenha da ditadura militar, que forçava as pessoas a uma felicidade que apenas era desmistificada (ou até vivida) através da poesia. Eu precisava daquilo: do contrário me evadia aos tentáculos da “normalidade”, onde era importante permanecer. Uma adolescência um ta…

João Rosa de Castro - Bis

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SENHORA
Quem quer ouro ganha glória, Quem quer glória ganha ouro. Mas não dá pra ser assim. Tal qual se quer.
Você aceita a resposta que não foi pensada. Você parece me querer como eu estiver.
Na pobreza do balaio há riqueza impenetrável. Você é uma heroína inalcançável, indecifrável – uma esfinge.



Todo o meu manifesto escrito teve início em 1992. Portanto, em 2018, serão 26 anos de letras. Até aquele ano, eu tinha trabalhado bastante sem saber com que finalidade. Fora mensageiro em escritórios do centro de São Paulo. Andara com documentos envelopados sem saber o que diziam. Entregara duplicatas, cujos pagamentos ou serviços não sabia serem lícitos. Talvez, fosse cúmplice de gangues sem que nem o percebesse. O crime estava além do meu entendimento. Não que hoje já o entenda. Os amigos de minha idade eram tão ingênuos quanto eu. Íamos três ou quatro rapazes em busca de emprego pelo centro, vindo andando da República até o Brás, em busca de placas “admite-se office-boy” ou, o que era mais interes…