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João Rosa de Castro - Bis

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O CHAMADO
Desligue o celular, Desligue o marca-passo. Apague a lamparina. Desconecte o pecê. Feche a geladeira. Tampe o fogão. Deixe a pia limpa. Porque aqui nesta sala Não há saída de emergência. E os seus neurônios entrarão no ócio. Você não vai precisar de coração. As imagens vão se projetar de sua própria cabeça. Venha para a tela mágica. Não existe vida sem um alimento parecido. A fome de que padecemos Só pode ser saciada quando reaprendemos a nos entregar. Venha para a apoteose de um ser. Descubra nesta viagem a nova chave do querer. Prometa tudo e não cumpra nada – viva. Viva o rei! Viva o coveiro! Viva o burguês! Viva o pandeiro! O camponês conhece a terra. O poeta o papel em branco. Você os sinais de trânsito numa cidade metálica. Sempre conhecemos alguma coisa profundamente. Não tema vir e venha. Que estas imagens estão sedentas do seu olhar.

João Rosa de Castro - Zum

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CARRUAGENS DE ONTEM(Primeiro poema do primeiro livro, escrito no começo da década de 90)
Por que tenho de querer mais Se tenho o céu a assistir-me E estrelas tão sinceras Adentrando-me a janela?
Por querer mais do que a lua É que posso ver-me homem. Por querer a sobremesa Que sequer a mesa espera. Dai um doce, pois os beijos Só depois de tuas tetas.
Por que tenho de querer E rejeitar a leve brisa? Se meu rosto refrescou Não senti, nem percebi. Nessa ânsia, na ganância, Eu quis tanto estar aqui Mas agora vou-me embora. Não me encantas mais, aurora. Se eras bela, já parti.
Por que não este momento Se é real e o mais honesto? Por que quero ver incesto Se já tenho namorada? Por que não a alvorada, Esta aqui na minha frente Acenando o meu presente Com as duas mãos atadas? Eu clamando o meu futuro Não morri, ainda perduro Farejando as vivas rosas Dum passado já tão velho. Como dói ser um humano E honesto na cegueira Desdenhando as cachoeiras Por paragens dum deserto.

Não queria querer mais Do que as ondas incessantes A dançar…

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ÍCARO
Porque aquele que se acha no final voa rápido para o começo. E relê tudo. E refaz tudo. E novamente se surpreende, Que até as paredes do labirinto Criam imagens novas no tempo. Porque o ventre da natureza Com seus tentáculos abraça o homem Sempre que ele se vê perdido. E as canções e as solidões Das multidões o acompanham embevecidas Em rimas lentas e encantadoras.
Não há pessoa que não se perca Nos arredores do além-mundo. Pois entre o silêncio do último suspiro E a sinfonia do nascimento O melhor mesmo é renascer.

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AVENIDA PRINCIPAL
Ontem cantaram alto E amarraram os sapatos. Hoje afetam silêncio Para induzir os mais virgens.
Ontem a tinta ia Para além da tela decente. Hoje a ilusão chega Com virtual orgasmo, Coisas intermitentes Sem odor acentuam Batidas do coração.
Se alguém aqui fosse anjo Com metálica vestimenta A mecânica asa a jato Faria voar tão alto Que o combustível acabava.
Ontem cartas rondavam E os semblantes reluziam. Hoje incomunicáveis Nós nos tornamos deuses.

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O DESAMOR DO PÓS-AMOR
Impedido de falar de amor, o poeta calou-se. Porque indissociáveis são o belo e o mundo. O amor da tragédia, O amor das panelas, O amor dos instrumentos, O high-tech amor, É o mesmo da menina, É o mesmo no teclado Dos pecês apaixonados.
Não arranquemos o amor do poeta. Sem o qual ele não anda, Sem o que ele não vaia, Sem amor, não surpreende. Desamando, ele desmaia.
Deixem ele e suas cores Policiais e marítimas, Tudo pra ele é infância; Tudo por ele: aventura; Tudo amor e armadilhas.
O poeta calado é relíquia; O poeta falado é ausência; O poeta de amor se alimenta; Sem ele sua alma perece.
Deixa o amor na poesia E a poesia no amor.

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ANDAIME
Sem achar que o papo incomoda Ou que as ondas são enfadonhas. As respostas para um impulso que rebenta Estão nas coisas que o impulso faz fazer.

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CARTAS NO CHÃO
Em tom de boas-vindas a vida recebeu-nos. E nosso único desejo era existirmos plenos. Cada um na sua ilusão, Cada um na sua solidão, Cada um no sossego escolhido Para que a indispensável aleluia Fosse ouvida de longe.
A dança dos andares Escrevia nas calçadas. Cada passo, um destino novo, É aonde se quer chegar: Aonde o passo imprime a ordem. É marcha, é dança é andança.
Volátil andar a jato. Portátil alma de um corpo. Notável o nosso jogo De insights lentos e tácteis.
Quanta arrumação num átimo. Quanta possibilidade houve Numa só noite de festa