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João Rosa de Castro - Bis

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CANTÁRIDA
Pétala tida por chip Orvalho em placas. Janelas fechadas por dentro E abertas por fora. O laboratório em silêncio. O ritmo robótico da psicofagia E o verbo aparece. Brotar, crescer, conhecer O modo como se nutre. A pétala faz o seu caminho Até ser chip.

João Rosa de Castro - Bis

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O RG
Nascida na cidade sem tamanho, Na data que no ano é feriado, A foto foi tirada no escuro Não sabem por ai quem será ela. A data de emissão nunca é recente O polegar direito ficou fraco.
O plástico ruído de tão gasto Andou pela bolsinha delicada. A Vera é a Vera e não Luana.
Entrega ao porteiro toda vez. Não sabe ele que ela não precisa. De norte a sul já é tão conhecida. Mas fica: o consulado é exigente.
O que pensava ela nesse dia? Que se não fosse assim não era gente? A fila, o carimbo, a atendente Pedindo sua altura e a cor dos olhos.
Só rindo mesmo imaginando o medo Que sente Vera Lúcia confundida, É una, fina, alegre, inteligente Mas passa por um número geral.
Geral que a outra parte não se perde, Nenhuma Vera é assim tão verdadeira. O erregê de Vera na padoca Pra todo mundo ver que ela existe.

João Rosa de Castro - Bis

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AS CORES DA PAZA mesma paz que faz ver o outro E cega a barbárie inativa, Aquela paz das origens, Que encerra a ação humana, Será tomada no futuro, Como o baluarte da alma. Mãe soberana da esperança, Da sintonia dos gestos, Da simetria de dois mundos, Da empatia oportuna, Da ajuda que se clama, Do desejo de construir, Do fascínio pelo sorriso, Do harmônico movimento Do povo no seu destino, A paz, que surge e acena E não envelhece o olhar Renovado à cada estação, Alimenta-se do próprio tempo, Exala seu ar pela terra, Propõe a expansão da existência, Reúne a arte e a ciência, Inspira a filosofia, Invoca a religião. Pelas mãos da mesma paz, A comunidade se amplia Em força e em conhecimento, A criança anuncia o futuro, A natureza colore e floresce, Pulsa o humano coração, A violência fica sem voz E o que se promove é a vida, Como se o começo fosse agora.

João Rosa de Castro - Bis

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MADRIGAL
Que tradição seguiremos No conglomerado de tribos, Se a humana força se perde A cada minuto da hora? O que há nos lares escuros? A solidão, o delírio, A dança, a festa ao domingo E a timidez nos olhares. Que multidão formaremos Nas avenidas abertas Falando igual idioma Nessa linguagem secreta?
Vamos pairar feito anjos Vendo felizes os deuses De uma distância impossível
Como se não existíssemos.

João Rosa de Castro - Bis

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BIS
A banda feminina passou pela vila. Nenhuma rasura era permitida. Nenhuma denúncia, nenhuma violência. As risadas tão quentes que as moças davam. A ponta de inveja das que não eram mais fêmeas. As unhas pintadas de maneira festiva. A sua intensidade, a sua natural intelectualidade. Mulheres-maravilhas com as mãos acenando. Mulheres-gatas – louraças, negraças, morenaças... As malabaristas circences donas da Terra passavam. Perfumaram as ruas com fragrâncias exóticas. Não mostraram a bunda mais do que A clareza das faces verdadeiras. Não mostraram a matéria mais do que A tepidez de suas almas ternas. A vila ficou menos periférica Com a passagem da banda feminina. E elas nem sequer gritaram Nem tampouco se venderam Passaram sem caridade, Sem bondade, Sem lascívia, Só passaram.

João Rosa de Castro - Bis

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MÁQUINA-EU
Esse ódio que por mim sentiste Ficou tão intenso, Ficou tão vibrante, Ficou tão contínuo, Que se tornou cintilante antes de virar amor.

João Rosa de Castro - Bis

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BACO
O que faço se a minha pior fraqueza Reside num corpo que não é o meu? E para o fruto que me nutra, atravesso desertos. E para a mais básica água, tenho de dançar a chuva. E o meu pensamento são tíquetes. A vida nos segundos do relógio Fica tímida ao se ver desmascarada. Que mundo é esse que criei! Que labirinto! Então eu quase nulo, Então eu quase bicho, Então eu quase sóbrio, Subo umas escadas de pedra Vejo de longe a perfeição E volto para a temida solidão. A vida só pode ser bela, A vida só pode ser pura, A vida só pode ser longa, Quando se tem coragem para disfarçar.