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João Rosa de Castro - Bis

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O TEMPO
A parede diz as horas. A parede mostra a língua. A parede paquera. A parede sorri alto. A parede tem ouvidos. A parede dá paisagens. A parede dá conselhos. A parede esconde o outro lado. A parede não deixa entrar. A parede separa um chão do outro. A parede quer ser pra cada um Uma mãe eterna, um pai risonho.

João Rosa de Castro - Bis

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INFÂNCIA
Haverá um tipo novo de lágrima Para essa nova gama de sentimentos. As páginas da vida separadas por capítulos Surpreendem os autores. Um homem esquecido, Um homem rejeitado claramente, Um homem posto à margem como nunca. Esculpe para saber-se fazendo, Dança para notar-se existindo E verte um sorriso forte Para dizer que está ali. Haverá um tipo novo de encanto Para uma nova forma de infância.

João Rosa de Castro - Bis

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O MODEM
Digitou o que disse o coração. O modem mandou para quem não tinha coração. O choque da ponta dos dedos Apagou as letras do teclado. Esta memória potente Guardou mexericos desprezíveis Guardou fotos e diálogos E agora dá imagens a quem pedir. Esta memória é indecente Os gigabytes namoram E ela não conta a ninguém. Esta memória é ufana. Derrama a lua e declama Os bate-papos perdidos. Sentiu o toque na tecla E as luzes se acenderam. A ilusão dessa tela Reacende sorrisos. O solitário e os ícones, Os ícones e as tabelas, As tabelas e os espaços em branco Formaram um matrimônio. O nome dela é Abigail.

João Rosa de Castro - Bis

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CADA JOÃO
Cada João que desce a cerra E se vê na natureza Persiste com passos inéditos Na vida sem desilusão.
Cada Tereza que fecunda outro corpo E se esconde da gente Insiste em cantar A canção já cansada.
Cada pronome que explode na boca E se agiganta aos ouvidos É o desenho do que se deseja Tomar para si e abraçar.
Cada história de vida que se desenrola E se impõe diante do povo Quer apenas ser lida Como carta secreta.
Cada grito que ensurdece o teatro Carrega em si todo um vídeo Que assim se rebela Para alertar.
Cada sonho que se tem acordado Separa um dia do outro Formando um tempo próprio Na vida de cada José.

João Rosa de Castro - Bis

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O CHAMADO
Desligue o celular, Desligue o marca-passo. Apague a lamparina. Desconecte o pecê. Feche a geladeira. Tampe o fogão. Deixe a pia limpa. Porque aqui nesta sala Não há saída de emergência. E os seus neurônios entrarão no ócio. Você não vai precisar de coração. As imagens vão se projetar de sua própria cabeça. Venha para a tela mágica. Não existe vida sem um alimento parecido. A fome de que padecemos Só pode ser saciada quando reaprendemos a nos entregar. Venha para a apoteose de um ser. Descubra nesta viagem a nova chave do querer. Prometa tudo e não cumpra nada – viva. Viva o rei! Viva o coveiro! Viva o burguês! Viva o pandeiro! O camponês conhece a terra. O poeta o papel em branco. Você os sinais de trânsito numa cidade metálica. Sempre conhecemos alguma coisa profundamente. Não tema vir e venha. Que estas imagens estão sedentas do seu olhar.

João Rosa de Castro - Zum

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CARRUAGENS DE ONTEM(Primeiro poema do primeiro livro, escrito no começo da década de 90)
Por que tenho de querer mais Se tenho o céu a assistir-me E estrelas tão sinceras Adentrando-me a janela?
Por querer mais do que a lua É que posso ver-me homem. Por querer a sobremesa Que sequer a mesa espera. Dai um doce, pois os beijos Só depois de tuas tetas.
Por que tenho de querer E rejeitar a leve brisa? Se meu rosto refrescou Não senti, nem percebi. Nessa ânsia, na ganância, Eu quis tanto estar aqui Mas agora vou-me embora. Não me encantas mais, aurora. Se eras bela, já parti.
Por que não este momento Se é real e o mais honesto? Por que quero ver incesto Se já tenho namorada? Por que não a alvorada, Esta aqui na minha frente Acenando o meu presente Com as duas mãos atadas? Eu clamando o meu futuro Não morri, ainda perduro Farejando as vivas rosas Dum passado já tão velho. Como dói ser um humano E honesto na cegueira Desdenhando as cachoeiras Por paragens dum deserto.

Não queria querer mais Do que as ondas incessantes A dançar…

João Rosa de Castro - Zum

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ÍCARO
Porque aquele que se acha no final voa rápido para o começo. E relê tudo. E refaz tudo. E novamente se surpreende, Que até as paredes do labirinto Criam imagens novas no tempo. Porque o ventre da natureza Com seus tentáculos abraça o homem Sempre que ele se vê perdido. E as canções e as solidões Das multidões o acompanham embevecidas Em rimas lentas e encantadoras.
Não há pessoa que não se perca Nos arredores do além-mundo. Pois entre o silêncio do último suspiro E a sinfonia do nascimento O melhor mesmo é renascer.