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domingo, 28 de agosto de 2016

João Rosa de Castro - Amargo & Inútil



MATEMÁTICA DE CORDEL Enquanto a primavera se ausenta, enquanto a primavera demora, enquanto a primavera não chega, muito sangue correrá pelas veias e sarjetas, e só a bossa-nova fará esquecer o caos. Meus desejos porém estarão em desordem, meu andar em desordem andará. As baianas enfileiradas no carnaval ansiarão pela desordem da antiga avenida. Do alto, a desordenada arquibancada acolherá o suor dos meus pés até às cinzas da quarta-feira de cinzas. Depois haverá lembranças sombrias de Policarpo Quaresma. Será quaresma no país que me consome e que consumo. Eu, sujeito, prossigo. O novo big-bang das vontades divinas faz duns homens projéteis, e doutros homens os alvos. Deus-bomba, deus-beijo, deus-Deus. Homem-bomba, homem-beijo, homem-homem. Eu, objeto, caminho vendo a primavera ao longe, contemplando-a lenta, ouvindo-a aproximar-se. Um avanço de unhas de gato temperamental na pele macia – terror. Eis o progresso que alcanço. Uma fila quilométrica no albergue da prefeitura. Progresso? Progresso! – fruto de tanta, de tamanha ordem. Eu, sujeito-objeto, qual formiga trabalho em louvor à primavera. O exército alienista não poderá alienar-me. Sou sujeito diante do objeto, objeto diante do sujeito, sujeito-objeto diante do objeto-sujeito.